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Contabilidade Ambiental e Ecoeficiência – BAI600



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Artigo de Carlos Pedro Staudt – Ecosfera 21

Nesse artigo desenvolvo a proposta de um modelo de contabilidade ambiental elaborado pela Ecosfera 21. Pode ser adotado por indústrias e prestadores de serviços. O objetivo é de facilitar a visualização dos passivos e ativos ambientais, contribuindo para uma melhor gestão ambiental e uma tomada de decisão mais efetiva, clara e objetiva por parte da empresa, além de ser indutor de ecoeficiência/Produção mais Limpa (P+L). Favorece também a qualidade da comunicação com os stakeholders.

A contabilidade opera com seis indicadores e cada qual abrange uma faixa de 100 pontos (100%), dividida entre ativos e passivos. No balanço ambiental ideal sem passivos e apenas ativos plenos soma-se 600 pontos, daí o nome BAI600. Essa proposta vale para  empresas do setor industrial. Para empresas prestadoras de serviços pode-se adotar o BAI400, como será visto no item 2.

1. Introdução

Tradicionalmente qualidade, preço e prazo apresentados por um fornecedor são as principais critérios considerados pelo cliente quando da compra de um produto ou solicitação de um serviço.

Porém já nos últimos anos os critérios ambientais se tornaram relevantes numa decisão comercial. Essa nova exigência reflete o engajamento e consciência do cliente diante do quadro ambiental local, regional e até global.

É um via de mão dupla, pois o fornecedor também é levado a rever suas práticas, além se pressionado pelos clientes, também o é por investidores, acionistas, e pelos próprios consumidores finais, mais conscientes e exigentes.

Nesse sentido o valor de uma empresa ultrapassa o tradicional modelo de balanço contábil que conhecemos. A contabilidade ambiental se torna um imperativo para uma empresa que se pretende apresentar alinhada com os princípios de inovação e sustentabilidade.

A contabilidade ambiental pode ser entendida como sendo o estudo dos ativos e passivos ambientais de uma empresa. Esse estudo é fundamental para um planejamento estratégico mais amplo e arrojado.

A proposta é norteada pela autossuficiência (energia elétrica e água), racionalização do uso dos recursos naturais, minimização da geração de resíduos, efluentes e emissões atmosféricas (resíduos sólidos, efluentes líquidos e gases poluentes) e uso de combustíveis renováveis (CO2) . A ecoeficiência/P+L tem papel de destaque principalmente na atividade industrial (grande consumidora de recursos e geradora de resíduos).

Esse modelo de gestão, que agrega aspectos ambientais, se torna efetivo se for transversal passando por todas as áreas da empresa. Assim, além da alta administração os colaboradores qualificados e capacitados são importantes no conhecimento dos ativos e passivos ambientais e nas proposições e ações de melhoria.

2. Contabilidade ambiental

Para efeito de contabilidade são considerados os principais insumos, subprodutos e resíduos alocados em “Entradas e Saídas de Processos” conforme Fig. 3, a saber: matéria-prima, combustível, energia elétrica, água, resíduos sólidos, emissões de CO2, gases poluentes e efluentes líquidos.

Processo - Entradas e Saídashttps://ecosfera21.files.wordpress.com/2019/06/processo-entradas-e-sac3addas.jpg?w=794&h=612 794w, https://ecosfera21.files.wordpress.com/2019/06/processo-entradas-e-... 150w, https://ecosfera21.files.wordpress.com/2019/06/processo-entradas-e-... 300w, https://ecosfera21.files.wordpress.com/2019/06/processo-entradas-e-... 768w" sizes="(max-width: 397px) 100vw, 397px" />

Figura 3. Quadro ilustrativo indicando os possíveis itens de entrada (insumos) e saída (resíduos) de um processo de fabricação ou prestação de serviço.

A Fig. 1 ilustra de que maneira pode ser apresentada a contabilidade ambiental. Adotou-se uma empresa fictícia do segmento industrial como exemplo. A periodicidade da contabilidade pode ser mensal, entretanto o resultado final deve ser anual. Para empresas prestadoras de serviço não são considerados os itens GP e EL (BAI400), salvo alguma exceção.

Figura 1 - Contabilidade Ambientalhttps://ecosfera21.files.wordpress.com/2019/06/figura-1-contabilidade-ambiental.jpg?w=150&h=113 150w, https://ecosfera21.files.wordpress.com/2019/06/figura-1-contabilida... 300w, https://ecosfera21.files.wordpress.com/2019/06/figura-1-contabilida... 608w" sizes="(max-width: 529px) 100vw, 529px" />

Figura 1. Apresenta um exemplo de contabilidade ambiental, com balanço entre ativos e passivos e seus respectivos componentes.

3. Indicadores ambientais

A seguir são descritos os seis indicadores utilizados na contabilidade ambiental.

3.1 Indicador 1 – EE Consumo de Energia Elétrica (MWh)

Considera-se toda energia elétrica consumida pela empresa. É um ativo quando gerada a partir de fontes renováveis (eólica, solar, hídrica e biomassa) internamente ou adquirida de terceiros. Para o passivo vale o mesmo conceito porém gerada de fontes não renováveis.

A energia elétrica da rede também é considerada passivo, apesar das fontes renováveis participarem com mais de 80% na sua geração, pois se preconiza a geração distribuída e a autossuficiência. Até 20% (20 pontos) de consumo de energia elétrica da concessionária é aceito como ativo.

Tabela 1. Ativos, Passivos e Ecoeficiência no consumo da energia elétrica (EE)

3.2 Indicador 2 – RS Geração de Resíduos Sólidos (t)

Resíduos sólidos segregados e encaminhados adequadamente para unidades de triagem, aterro sanitário e aterro industrial conforme o caso:

RST (t) – Resíduos sólidos recicláveis encaminhados para uma central de triagem.

RSC (t) – Resíduos sólidos orgânicos (sobras de vegetais crus) encaminhados para uma central de compostagem.

RSA (t) – Resíduos sólidos não recicláveis encaminhados para um aterro industrial.

RSM (t) – Os rejeitos da mineração são contidos em barragens. Estas devem ser seguras e monitoradas, e apresentar plano de contingência aprovado pela população do entorno.

Tabela 2. Ativos, Passivos e Ecoeficiência/Produção mais limpa (P+L) na geração e destinação dos resíduos sólidos (RS)

3.3 Indicador 3 – H2O Consumo de Água (m3)

A água consumida proveniente da rede de abastecimento e subterrânea são consideradas passivos, já a água de reúso é contabilizado como ativo. Outro ativo é a água de chuva utilizada, e também quando tratada e reutilizada (processos indústriais, na rega de jardins e nos sanitários). Até 20% (20 pontos) de consumo de água da concessionária é aceito como ativo.

Tabela 3. Ativos, Passivos e Ecoeficiência no consumo de água (H2O)

3.4 Indicador 4 – CO2 Volume de Emissão de Gás Carbônico (t)

Geração de energia térmica para processos industriais: são considerados ativos de gás carbônico as emissões oriundas de fontes renováveis (etanol, biodiesel, biomassa). Já os passivos são as emissões provenientes de fontes não renováveis (gasolina, óleo Diesel e gás natural).

Tabela 4. Ativos, Passivos e Ecoeficiência/Produção mais limpa (P+L) na emissão de gás carbônico (CO2)

3.5 Indicador 5 – GP Volume de Emissão de Gases Poluentes (t)

São ativos os gases poluentes de processos industriais quando coletados, tratados  e devidamente destinados. Contabiliza-se como passivos os gases não coletados e tratados.

Tabela 5. Ativos, Passivos e Ecoeficiência/Produção mais limpa (P+L) na emissão de gases poluentes (GP)

3.6 Indicador 6 – EL Volume de Emissão de Efluentes Líquidos (m3)

Os efluentes líquidos (processos industriais) coletados e tratados se enquadram como ativos. Os passivos se referem aos efluentes líquidos não tratados.

Tabela 6. Ativos, Passivos e Ecoeficiência/Produção mais limpa (P+L) na geração de efluentes líquidos (EL)

4. Balanço Ambiental (BA)

Uma vez tabelados os resultados dos indicadores na tabela de contabilidade (ativos e passivos ambientais) pode-se fazer o balanço ambiental. Neste caso em particular o resultado foi BA = -120. Um resultado negativo e muito ruim para a empresa fictícia usada como exemplo.

Tabela 7 - Balanço Ambietalhttps://ecosfera21.files.wordpress.com/2019/06/tabela-7-balanc3a7o-ambietal.jpg?w=150&h=63 150w, https://ecosfera21.files.wordpress.com/2019/06/tabela-7-balanc3a7o-... 300w, https://ecosfera21.files.wordpress.com/2019/06/tabela-7-balanc3a7o-... 752w" sizes="(max-width: 525px) 100vw, 525px" />

Tabela 7. Apresenta o Balanço Ambiental relativo as informações do exemplo dado na  Fig.1. Nesse caso o resultado final é negativo em 120 pontos.

A seguir são apresentados os resultados dos indicadores com as devidas considerações.

4.1 Balanço EE = 0 (50-50)

O componente energia elétrica apresentou um valor nulo, indicando equilíbrio entre ativo e passivo. Indica que metade do consumo de energia elétrica (50%) foi da geração própria por fontes renováveis e a outra metade do consumo, passivo, foi da rede e/ou da geração próprio por fontes não renováveis.

A energia elétrica fornecida pela rede (sistema interligado nacional) tem alta participação de sistemas renováveis (usinas hidrelétricas, solar FV, eólica e biomassa) em torno de 83%. Porém nesse modelo de contabilidade preza-se a autossuficiência e a geração distribuída. Caso o consumo de energia fosse apenas da rede, não haveria pontuação no ativo e o passivo seria de 100 pontos.

4.2 Balanço RS = -20 (30-70)

Os resíduos sólidos são parcialmente segregados e destinados corretamente, somaram 30 pontos. Os 70 pontos do passivo podem ter sido originados de resíduos recicláveis, e outros (resíduos não recicláveis e orgânicos) que foram encaminhados para um aterro sanitário. Observar a lei nº 12.305 de 2010 que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos.

4.3 Balanço H2O = -20 (40-60)

No caso da água temos um ativo com 40 pontos. Indicando que parte do volume total (40%) consumido, pode ter sido de água coletada de chuva e do reúso de água da rede. O consumo maior (passivo) foi de água da rede de abastecimento e também de poços artesianos, por exemplo.

4.4 Balanço CO2 = 40 (70-30)

Esse foi o único indicador que apresentou balanço positivo (40 pontos) foi o CO2, indicando que 70% das emissões de CO2 resultaram da geração de energia térmica por fontes renováveis, como o uso de resídios de madeira para alimentar as caldeiras na geração de vapor. Já a contabilidade do passivo pode ter sido pelo uso de gás natural para aquecimento dos fornos de tratamento térmico.

4.5 Balanço GP = -60 (20-80)

A coleta e o tratamento de gases poluentes só é feita para 20% do total que se dispersa na  atmosfera. Isso é muito grave do ponto de vista da saúde pública e meio ambiente. Existem equipamentos e procedimentos adequados para a retenção e minimização dos poluentes produzidos. Deve-se observar a legislação pertinente sobre o assunto.

4.6 Balanço EL = -40 (30-70)

Os efluentes líquidos são parcialmente (30%) coletados e tratados. Grande parte segue para corpos hídricos sem nenhum cuidado. Isso é muito grave do ponto de vista da saúde pública e meio ambiente. Deve-se observar a legislação pertinente sobre o assunto.

5. Balanço Ambiental Ideal – BAI600

Uma contabilidade ideal conforme a Fig. 2 apresenta um balanço onde os ativos somam 100 pontos por indicador. Essa é a meta a ser alcançada, o norte. Passivo zero pode ser utópico, mas pode-se pensar em metas de ecoeficiência orientadas por um trabalho de benchmarking, ou seja, se igualar ou superar com o melhor que o mercado apresenta. Essa proposta é explanada no item 6.

Figura 2 - Contabilidade Ambiental BAI600https://ecosfera21.files.wordpress.com/2019/06/figura-2-contabilidade-ambiental-bai600.jpg?w=150&h=113 150w, https://ecosfera21.files.wordpress.com/2019/06/figura-2-contabilida... 300w, https://ecosfera21.files.wordpress.com/2019/06/figura-2-contabilida... 608w" sizes="(max-width: 459px) 100vw, 459px" />

Figura 2. Apresenta um exemplo de contabilidade ambiental com balanço ideal entre ativos e passivos onde os componentes dos ativos atingiram 100 pontos cada um, totalizando 600 pontos, isto é, BA = 600.

6. Benchmarking ambiental

Uma vez elaborado o balanço ambiental (BA) tem-se uma boa avaliação da situação ambiental da empresa. A partir daí podem-se definir metas de aumento dos ativos e consequente redução dos passivos por unidade produzida ou serviço prestado. O principal instrumento é o benchmarking.

Por meio de um ranking de benchmarking pode-se se situar a empresa ou avaliar os seus concorrentes. É uma técnica estratégica que tem como objetivo acompanhar processos de empresas de um mesmo segmento de atividade, concorrentes ou não, que se destacam como as melhores práticas administrativas, modelos de gestão e tecnologias direcionadas a área ambiental.

7. Considerações finais

Nos dias de hoje o Brasil ainda enfrenta graves problemas ambientais. O enfrentamento passa pela por uma união do setor empresarial seguida, do poder público e da sociedade civil, a fim de ampliar a discussão da situação e principalmente definir as responsabilidades de cada um neste processo.

Importante afirmar que a maior parte das empresas principalmente as maiores, reservadas as exceções, está cada vez mais agindo com responsabilidade ambiental. Isso se deve a própria exigência do mercado (principalmente o externo), e a conscientização da sociedade.

Dessa maneira a contabilidade ambiental vem ganhando espaço, pois para tratar o paciente é necessário primeiro o diagnóstico. Essa contabilidade integrada a uma boa gestão ambiental irá garantir de maneira geral os avanços da sustentabilidade nas empresas.

Para concluir, ainda se faz necessário uma divulgação mais eficaz dessa ferramenta e dos seus benefícios no meio empresarial.

Referências

Barbieri, José Carlos., Cajazeira, Jorge Emanuel Reis. Responsabilidade Social Empresarial e Empresa Sustentável: da teoria à prática – São Paulo: Saraiva, 2009.

Goldemberg, Jose., Villanueva, Luz Dondero. Energia, Meio Ambiente e Desenvolvimento.Sao Paulo: Edusp, 2003.

Kruglianskas, Isak., Aligleri, Lilian., Aligleri, Luiz Antonio. Gestão Socioambiental: Responsabilidade e Sustentabilidade do Negócio – São Paulo: Atlas, 2009.

Philippi Jr., Arlindo., Roméro, Marcelo de Andrade., Collet, Bruna Gilda., Editores. Curso de Gestão Ambiental. Barueri/SP: Manole, 2004.

Revista Idea Sustentável. Dez Desafios da Gestão Sustentável nas Empresas. Disponível em: https://www.ideiasustentavel.com.br/dez-desafios-da-gestao-sustenta... Acesso em junho 2019.

Santos, Adalto de Oliveira & Outros. Contabilidade Ambiental: Um Estudo sobre sua Aplicabilidade em Empresas Brasileiras. Revista Contabilidade & Finanças FIPECAFI (FEA/USP) v.16, n. 27. São Paulo, 2001.

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