Comunidade Crie Futuros

Comunidade e Atividades do Movimento Crie Futuros

por Carlos Pedro Staudt – Professor e Consultor em Sustentabilidade Empresarial (Ecosfera 21)

Quatro elementos me inspiraram à escrever este artigo e pensar no neologismo Ecoceno. A seguir farei um breve relato das publicações e dos seus autores.

Começando por “Ideias e Moralidade” que encontrei em reportagem atual, intitulada O poder das ideias publicada pela revista EXAME, com Jeffrey Sachs. Economista e professor de Harvard, lidera o grupo de trabalho que finaliza a proposta da ONU intitulada Metas do Desenvolvimento Sustentável que deverá guiar os países nos próximos 15 anos, a partir de 2016.

O segundo elemento inspirador trata da Era Ecológica e integra a extraordinária obra de Thomas Berry – O Sonho da Terra (1991). Berry foi historiador cultural e eco teólogo, porém preferia ser descrito como cosmólogo e “Acadêmico da Terra”.

No termo Novo Mundo encontrei o terceiro elemento. Disponível no excelente livro Sociedade pós-capitalista (1994) de Peter Drucker. Considerado o pai da administração moderna, foi escritor, professor e consultor administrativo.

O mais provocador, o quarto elemento trata do neologismo Antropoceno. Grande contribuição de Paul Crutzen, prêmio Nobel de Química (1995) que desenvolveu este conceito em seu artigo, publicado na conceituada revista científica Nature (2002).

IM Uma civilização não se limita apenas ao seu avanço intelectual, não menos importante é o seu estágio moral. Este decorre do intelectual, porém o distanciamento entre os mesmos – situação em que vivemos hoje – inviabiliza a sua sustentabilidade ao longo do tempo. Isso vale para governos, empresas e também para a sociedade.

Jeffrey Sachs autor do recém lançado livro – The Age of Sustainable Development – destaca que ideias e moralidade pavimentam o caminho para grandes rupturas, quando se refere principalmente aos desafios climáticos.Cita como exemplo a luta liderada por Mahatma Ghandi e seus contemporâneos, nas primeiras décadas do séc. XX, contra o regime colonial europeu na África e Ásia. Após o fim do colonialismo Ghandi levou inspiração para os movimento por direitos civis e humanos em âmbito mundial.

Hoje a civilização moderna que tem acesso as mais novas tecnologias, a educação, a saúde e as oportunidades de trabalho digno, corresponde a menos de um quarto da população mundial. Mesmo assim exigimos mais de um planeta para satisfazer o padrão e o estilo de vida dessa parcela da população – estamos no cheque especial. Portanto o modelo hegemônico atual não serve de referência para nenhum país. O desafio é gigantesco mas não impossível. Ideias e moralidade serão decisivas para o avanço do desenvolvimento sustentável.

EE Thomas Berry afirma na sua obra O Sonho da Terra que estamos ingressando em novo período histórico “a era ecológica” que indica a interdependência de todos os sistemas vivos e não-vivos que existem na terra. É de extrema importância termos uma visão de um planeta em perfeito equilíbrio, necessária para ampliar a nossa força psíquica diante das inevitáveis transformações mentais e sociais.Diz que não são simples ajustes dos nossos hábitos em relação ao consumo, ao sistema educacional, econômico. Algo muito maior está acontecendo. Trata-se de uma mudança radical de consciência.

Afirma textualmente: “Nosso desafio é criar uma nova linguagem, e até mesmo dar um novo sentido ao que é ser humano. Trata-se de transcender não apenas nossas limitações nacionais, mas até o nosso isolamento como espécie, para ingressar na grande comunidade das espécies vivas. Tudo isso culmina em um sentido totalmente novo da realidade e dos valores.”

NM Segundo Peter Drucker em seu livro Sociedade pós-capitalista, a cada dois ou três séculos ocorre uma grande transformação na história ocidental. Bastam poucas décadas para a sociedade se reorganizar sob uma nova visão de mundo, de valores, estrutura social e política, chegando até as artes, e as suas principais instituições. Nesse Novo Mundo as novas gerações não poderão imaginar como viviam seus avós e quando nasceram seus pais. Atualmente estamos passando por uma dessas transformações. Afirma ainda que já ocorreram mudanças no cenário político, econômico, social e moral do mundo. O principal recurso dessa nova sociedade será o conhecimento.

Define que a última grande transformação começou no terceiro quarto do século XVIII, destaque para alguns fatos: Revolução Americana, aperfeiçoamento da máquina a vapor (James Watt), publicação do livro A Riqueza das Nações (Adam Smith). Após quarenta anos surgiu uma nova civilização europeia.

AC Holoceno é a época que teve iniciou há cerca de 11,5 mil anos e se estende até o presente, está contida no período Quaternário da era Cenozoica. Tem início com o fim da última era glacial principal – Idade do Gelo. Já o Antropoceno ocuparia parte final do Holoceno. Começaria na revolução industrial, há pouco mais de 200 anos. O Antropoceno se refere a época da dominação humana, por conta do alto grau de degradação ambiental decorrente das suas atividades, ou seja, o ser humano adquiriu um poder de alteração (destruição) das condições ambientais numa escala equivalente a geológica – erupções vulcânicas, terremotos, maremotos e tsunamis, por exemplo.

EC Se pensarmos na transição do Antropoceno para uma época mais sustentável representada pelo progresso intelectual e moral de maneira equilibrada, poderíamos pensar no Ecoceno. Época onde a ecologia ganharia força para revertermos de maneira efetiva e em grande escala a degradação ambiental que se desdobra em impactos sociais e até econômicos. Tanto no Antropoceno quanto no Ecoceno o ser humano tem papel central, pois detêm um poderio tecnológico e poder de agir sobre o planeta em uma escala inimaginável.

Pelo o que já foi tratado até aqui, já adentramos numa nova época. Não nos falta conhecimento nem tecnologia. Milhares de empregos podem ser gerados em projetos de regeneração ambiental, no socorro aos povos mais vulneráveis, no aproveitamento de fontes renováveis de energia, no ecodesign, na química verde, nos meios de comunicação, na agricultura, no saneamento básico, nos projetos de habitação popular, na mobilidade dos grandes centros. Também na reinvenção e inovação dos modelos de saúde, educação e trabalho.

Veremos então uma nova sociedade consciente dos limites do planeta. Bens e serviços ambientais serão administrados com sabedoria e respeito, desde a água potável, do solo fértil para a agricultura de multi culturas isenta de agrotóxicos, da qualidade do ar, das florestas em pé como produtoras de água. Essas são algumas das condições para o acolhimento das mais variadas espécies – que vivem no chão, nos solos, nos ares, e nas águas.

Daí a necessidade das empresas atuarem com responsabilidade e boa governança, dos governos serem mais democráticos e transparentes, trabalhando em prol do coletivo e abrindo espaço para participação do cidadão. Já é urgente fortalecer a resiliência e reduzir a vulnerabilidade das sociedades frente a eventos climáticos extremos – chuvas intensas, estiagem prolongadas, e da escassez de alimentos à água potável.

Seremos muito menos turistas e muito mais peregrinos. São muitos os relatos emocionados dos peregrinos que fizeram o caminho de Santiago de Compostela na Espanha. Durante o trajeto passam por uma experiência transcendental de transformação espiritual e cultural. Sejamos mais peregrinos e façamos do nosso cotidiano um caminho de Santiago.

Por fim, nessa transição o Antropoceno nos servirá de profunda experiência e reflexão ética. As ações resultantes das Ideias e moralidade irão contribuir para uma consciência ecológica plena. Aí então uma sociedade humana harmonizada com o planeta estará pavimentado o caminho para um Novo Mundo – rumo ao Ecoceno.

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