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A TERCEIRA REVOLUÇAO INDUSTRIAL. Rumo a uma sociedade da partilha? Por Ricardo Abramovay

Esta nas livrarias a versão, em Português do Brasil, de:

TERCEIRA REVOLUÇAO INDUSTRIAL - M.Books

FICHA TÉCNICA. TÍTULO: A TERCEIRA REVOLUÇAO INDUSTRIAL. AUTOR: 
Jeremy Rifkin. PÁGINAS: 320. FORMATO: 16x23 cm. ISBN: 978857680181-8

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

http://gedipi.blogspot.com.br/2012/02/rumo-uma-sociedade-da-partilh...

Rumo a uma sociedade da partilha?

Por Ricardo Abramovay*

 

Não é inocente o uso da palavra revolução no nome de batismo das eras econômicas. Mais do que técnicas e possibilidades de mercado, o que está em jogo na terceira revolução industrial anunciada por Jeremy Rifkin é um novo poder: partilhado, descentralizado, colaborativo ou, para usar a expressão do título de seu último livro, lateral. Em comum com as duas revoluções industriais anteriores, a do século XXI também emerge da convergência entre novos meios de comunicação e formas inéditas de produção de energia. A coerência dos grandes períodos históricos dos últimos dois séculos é dada por essa unidade entre comunicação e energia. O carvão e o vapor, no século XIX, abrem caminho não só para estradas de ferro, e imensas frotas navais, mas também para a massificação de materiais impressos, o que favorece o surgimento da educação pública na Europa e nos Estados Unidos. Na segunda revolução industrial, que domina todo o século XX, o petróleo e a eletricidade permitem o motor a combustão interna, o automóvel individual e, sobretudo a comunicação apoiada em grandes centrais elétricas: telégrafo, telefone, rádio e televisão.

 

A terceira revolução industrial tem como marca central a rede de energia/internet. O fundamental não está na energia, na internet ou na noção de rede, e sim na junção das três: não só a energia, mas parte crescente da prosperidade do século XXI virá de uma organização social assinalada pela descentralização, pela cooperação e pela partilha.

 

O prognóstico já seria intrigante se partisse de um destacado acadêmico ou de um ativista ligado a movimentos sociais globais. Mas Rifkin tem ainda a qualidade de hábil articulador voltado ao diálogo com importantes dirigentes políticos contemporâneos e personalidades centrais na formulação e execução das estratégias de empresas globais. Professor do Wharton School’s Executive Education Program, da Universidade da Pensilvânia, autor de 18 livros (entre eles, já traduzidos para o português, A Era do Acesso, O Fim dos Empregos, A Economia do Hidrogênio e O Sonho Europeu), Rifkin, nos últimos dez anos, manteve estreito contato com figuras como Angela Merkel, Manuel Barroso e José Luiz Zapatero, o que contribuiu para que o termo terceira revolução industrial se incorporasse a inúmeros documentos da União Européia. Ao mesmo tempo, em torno da terceira revolução industrial reúne-se hoje uma centena de dirigentes empresariais globais. Muito mais do que um conjunto abstrato de normas e prescrições, a terceira revolução industrial está na agenda de algumas das mais importantes forças sociais e políticas contemporâneas.

 

Pelas resistências que desperta e pela mobilização que exige, seu sucesso depende de uma nova narrativa. A do período que se esgota agora é clara: concentrar recursos, fortalecer os regimes exclusivos de propriedade e favorecer a busca estreita dos interesses individuais são condições para a eficiência alocativa, da qual decorreriam produção de riqueza e bem-estar crescentes. A crise desencadeada em 2008 foi a pá de cal que retirou coerência a essa narrativa, como mostra o livro em sua primeira parte.

 

A narrativa da terceira revolução industrial, também exposta no livro, apóia-se em cinco pilares, que trazem consigo uma reorganização na cultura, nos modos de vida e nas formas de se fazer negócio. O primeiro está na passagem (nada trivial, é claro) das energias fósseis para as renováveis. O segundo, e talvez mais importante dos cinco pilares, é a transformação do estoque de construções de todo o mundo em micro usinas de coleta (e de distribuição) de energia.Na União Européia, onde essa idéia se converteu em orientação de política pública, Rifkin fala da existência de 190 milhões de micro usinas. Cada edificação tem o poder de absorver e transformar localmente energia vinda dos ventos, do sol e da reciclagem daquilo que seus ocupantes produzem e consomem. O princípio é que, contrariamente aos combustíveis fósseis ou ao urânio (energias de elite, que se encontram apenas em alguns lugares), as renováveis estão por toda parte. E, embora distante do horizonte brasileiro, Rifkin cita numerosos exemplos em que esse aproveitamento das energias descentralizadas e renováveis permite novos modelos de negócio.

 

O terceiro pilar está em tecnologias que permitirão armazenar (para se poder, então, distribuir) o produto dessas fontes inevitavelmente instáveis de energia de que são potencialmente dotadas as edificações. Rifkin prevê que, até meados deste século, a União Européia terá uma economia do hidrogênio inteiramente apoiada em energias renováveis. Mas isso supõe – quarto pilar – que os dispositivos da economia da informação em rede possam promover a integração e a partilha desse fluxo de energia produzido de maneira descentralizada. Aí reside a nova unidade entre comunicação e energia. São redes inteligentes, mas que operam com base em energias produzidas localmente, ao contrário das duas revoluções industriais anteriores. Além de resolver um problema de oferta de energia, essas redes dão lugar a uma nova forma de poder, não mais hierárquico, mas distributivo, colaborativo, em rede. Não se trata apenas de substituir a centralização dos fósseis, da energia nuclear e das grandes hidrelétricas por gigantescas unidades solares ou eólicas. O mais importante é promover a oferta desconcentrada e partilhada de energia.

 

O quinto pilar está no sistema de transportes, que dará maior peso aos equipamentos coletivos e também, no que se refere aos veículos individuais, aos carros elétricos e baseados em células combustíveis, integrados igualmente a esse sistema descentralizado de redes inteligentes.

 

Nada garante, é claro, o triunfo do poder lateral. Mas o livro de Rifkin mostra condições especialmente privilegiadas para que colaboração social, partilha e descentralização formem a base da prosperidade no século XXI.

 

*Ricardo Abramovay é professor titular do departamento de economia e do Instituto de Relações Internacionais da USP, pesquisador do CNPq e da FAPESP. Twitter: @abramovay – www.abramovay.pro.br

 

Artigo retirado do Portal Mercado Ético

 

02/02/2012 13:42:56

A hipótese do capitalismo auto-reformado

Antonio Martins, para o Outras Palavras 

http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/a-hipotese-do-capitalismo-...

O economista Ricardo Abramovay, ao resenhar The third industrial revolution ["A terceira revolução industrial", ainda sem tradução para o português], de Jeremy Rifkin, chama atenção para certas particularidades da possível transição para uma economia pós-petróleo e pós-comunicação de massas. O novo paradigma produtivo teria, como motor, as energias geradas em milhões de “micro usinas” — edificações comuns, prédios ou casas que captarão o potencial energético dos ventos ou do sol e o redistribuirão, por meio de redes muito sofisticadas. Nelas, os atuais consumidores de eletricidade passam a serprossumidores – ou seja, tornam-se capazes de injetar no circuito a energia que produzem.

Não se trata de uma ficção distante, mas de algo no horizonte dos atuais desenvolvimentos tecnológicos. O que Rifkin e Abramovay frisam é que, por sua própria natureza, este novo paradigma reverteria a concentração de poder presente no mundo dos grandes campos de petróleo e mega-centrais elétricas. Ele exigiria um poder “partilhado, descentralizado e colaborativo”, assim como a internet. E mais: ao apresentar Rifkin, Abramovay destaca seus laços com dirigentes políticos muito influentes (a chanceler alemã Angela Merkel, entre outros) e o mundo das mega-corporações. Ou seja: haveria a hipótese de uma evolução mais ou menos natural para o novo padrão — ainda que Abramovay frise: “nada garante” seu triunfo.

A mesma hipótese de uma auto-reforma do capitalismo foi levantada pelo jornalista Luís Nassif, em sua Coluna Econômicadeste domingo. Nassif prevê um retorno à fase — o pós-II Guerra, em que o sistema promoveu certa redistribuição de riquezas. Também apóia-se num trabalho de fôlego e repercussão internacional. No caso, Capitalism in Crisisa série corajosa de artigos que o insuspeito Financial Times está publicando; e, em especial, o texto em que Martin Wolf, principal articulista do jornal, tenta dar sentido ao trabalho.Aqui, o ângulo já não é a tecnologia, mas as políticas econômicas. Wolf choca-se com uma crença que orientou o Financial Times, e os economistas do mainstream, por três décadas: a suposta capacidade dos mercados para orientar a vida social. Afirma que, ao contrário, os bens públicos – entre eles, as políticas sociais — são os ”blocos estruturantes da civilização” . Acrescenta que um mundo globalizado precisará de bens públicos ainda mais sofisticados e de vigência internacional. Nassif lembra que idéias semelhantes acabam de ser expostas, no Fórum Econômico de Davos, por Lawrence Summers, “um dos principais arautos do Consenso de Washington”.

Nos textos de Abramovay e Nassif há, por certo, uma pitada generosa de otimismo ilusório — mas também observações essenciais para o período em que nos aproximamos da conferência Rio+20. O exagero está em pensar que as possibilidades abertas pela tecnologia, ou a reflexão sobre as causas da crise, serão suficientes para levar o capitalismo a algo como uma auto-reforma.

A realidade tem mostrado o contrário. Há dias, num Fórum Social Temático em Porto Alegre, Boaventura Santos lembrava: a busca de energias limpas está sendo desprezada pelos governos da Europa — há dez anos, os mais preocupados em promovê-las. Lá também são desmontadas, em velocidade impressionante, as políticas sociais que Martin Wolf vê, com lucidez, como cada vez mais necessárias. O capital não é movido por razão. Ao relembrar, nesta segunda-feira, os 79 anos de início do 3º Reich, Max Altman mostrou como grandes grupos empresariais foram parte do movimento que se aproveitou de uma crise profunda da economia alemã para construir o totalitarismo nazista. As reformas keynesianas e o pós-II Guerra, evocado por Nassif, foram movidos por outro fator. Nesses casos, o ascenso do movimento operário e, mais tarde, o da União Soviética, obrigaram o sistema a concessões muito importantes.

Mas é precisamente neste ponto que aparecem a importância e a necessidade dos textos de Abramovay e Nassif. Graças aos dois fatores que eles apontam em seus textos, tornou-se possível, nos últimos anos, alcançar transformações que seriam delírios, há pouco. Abriu-se um vasto caminho, talvez ainda pouco explorado por movimentos sociais, esquerda institucional, indignados, occupy — todos aqueles, enfim, que buscam construir novas lógicas sociais.

Há anos, mudanças tecnológicas e novas formas de organização do trabalho estão abrindo espaço para construir, mesmo sob hegemonia do capitalismo, relações sociais de outra natureza. Entre muitos outros, o exemplo mais evidente — por sua relevância econômica e pela densidade das redes que o constroem — é o software livre. Firmou-se, no mundo empresarial por sua segurança, inovação, robustez. Utilizado cada vez mais intensamente (desde os serviços do Google até as caixas de supermercado do Pão de Açúcar), ele é, porém, desenvolvido em comunidades que não estão submetidas às empresas e operam estimulando a colaboração e compartilhamento; rejeitando a propriedade. Ao adotá-lo, o capital abre brechas, revela que já não pode impor suas normas de centralização, hierarquia e controle em todo o universo da produção. A possibilidade real — destacada por Abramovay — de que este modelo se expanda por um setor tão estratégico como a geração de energia revela quanto pode crescer, num futuro próximo, o espaço para as relações pós-capitalistas de produção.

A janela de oportunidades é maior graças à incerteza sobre o rumo das políticas econômicas. É provavelmente cedo demais para comemorar o fim do neoliberalismo — mas estão expostas como nunca suas injustiças e desigualdades; suas ameaças à democracia; sua própria ineficiência na garantia de “estabilidade”. Além disso, multiplicam-se, na periferia — fora da Europa, América do Norte e Japão –, as experiências bem-sucedidas de caminhos alternativos, baseados em redistribuição de riquezas e garantia dos direitos sociais.

Ou seja: não se trata de acreditar num capitalismo auto-reformado — mas de perceber que novas relações sociais, pós-capitalistas, estão sendo criadas e multiplicadas já. Para se expandirem, e mesmo para se sustentarem, dependem de luta social intensa. Basta ver, por exemplo, a insistente campanha para bloquear o compartilhamento via internet, movida pelas empresas mais aferradas à lógica da propriedade.

Mas, vinte anos após a queda do “socialismo real”, há cada vez menos sentido em crer que as grandes transformações dependem da tomada do poder. Estão acontecendo sob nossos olhos, ou com nossa presença ativa. São imperfeitas, impuras, contraditórias. Estão imersas num mundo cuja lógica principal é a ditadura dos mercados. Mas contaminam este mundo, incessantemente: com colaboração, compartilhamento, des-hierarquização, direitos, igualdade, diversidade, afetos. Sobreviverão? Serão predominantes? Depende das nossas lutas — as de agora.

(Outras Palavras)

 

 

Ver também:

 

quarta-feira, 21 de março de 2012

Jeremy Rifkin - A Terceira Revolução industrial: Como o Poder Lateral (dos pares?) está Transformando a Energia, a Economia e o Mundo

Tradução de:

Excerpted from Jeremy Rifkin's The Third Industrial Revolution: How Lateral Power is Transforming Energy, the Economy, and the World, Palgrave Macmillan 2011.

 

http://www.huffingtonpost.com/jeremy-rifkin/the-third-industrial-re...  

 

Tradução disponível em:  http://reflexeseconmicas.blogspot.com.br/2012/03/jeremy-rifkin-terc...

 

 

domingo, 25 de março de 2012

Diagrama / Excertos de idéias (2003) - Rifkin, Jeremy - A Economia do Hidrogênio - A Criação do Web Energética em Escala Mundial e a Redistribuição do Poder na Terra

http://reflexeseconmicas.blogspot.com.br/2012/03/diagrama-excertos-...

 

 

 

domingo, 25 de março de 2012

Rifkin, Jeremy - A Economia do Hidrogênio - A Criação do Web Energética em Escala Mundial e a Redistribuição do Poder na Terra

http://reflexeseconmicas.blogspot.com.br/2012/03/rifkin-jeremy-econ...

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